
Está aí um livro que sempre tive vontade de ler mesmo conhecendo a história e já sabendo que não me decepcionaria.
Alice tornou-se um clássico da Disney que encantou muitas crianças (ou não), inclusive eu. Já Burton fez alguns se apaixonarem mais ainda pela menina loira (que na realidade nunca foi loira) ou ficarem com a sensação de que poderia ter saído algo mais interessante daquela cabeça criativa (pelo menos eu senti isso).
A minha paixão real pela história começou não a partir destas versões em filme, mas sim de outro livro. A obra em questão é Paixões – amores e desamores que mudaram a história, de Rosa Montero. O tipo de livro que, confesso, comprei pela capa (John e Yoko). Mas, já nos primeiros relatos sobre casais (ou não) famosos, me encantou. E a história mais marcante é, de fato, a paixão de Lewis Carroll pela amiga-menina (como trata a autora) Alice Liddell. 
Carroll já era um homem de seus 20 e poucos, quase 30 anos, amigo da família Liddell. Ele gostava de brincar e contar histórias para Alice e suas duas irmãs. Todas com menos de 10 anos. A preferida entre as três era Alice. Esperta e curiosa. Sempre querendo ouvir uma história nova. Assim, surgiram os contos As aventuras de Alice no País das Maravilhas e Através do espelho e o que Alice encontrou por lá. Escritos como presentes para a menina que Carroll gostava de fotografar semi nua. Apesar disso, Montero afirma que ele morreu virgem e nunca tocou em Alice. Ela guardou os originais e, quando estava passando por dificuldades financeiras, vendeu em leilão.
Mas, o que interessa aqui são as histórias escritas pelo próprio Carroll. Com o poema de abertura já me emocionei. Pra quem não conhece o envolvimento que eles tiveram e nunca se deu conta de que Alice era uma menina de verdade, talvez pense que não faça muito sentido, mas, pra mim, descreve muito bem o que ele sentia pela sua amiga-menina. Transcrevo a seguir:

JUNTOS NAQUELA TARDE DOURADA
Deslizávamos em doce vagar,
Pois eram braços pequenos, ineptos,
Que iam os remos a manobrar,
Enquanto mãozinhas fingiam apenas O percurso do barco determinar.
Ah, cruéis Três! Naquele preguiçar,
Sob um tempo ameno, estival,
Implorar uma história, e de tão leve alento
Que sequer uma pluma pudesse soprar!
Mas que pode uma pobre voz
Contra três línguas a trabalhar?
Imperiosa, Prima estabelece:
“Começar já”; enquanto Secunda,
Mais brandamente, encarece:
“Que não tenha pé nem cabeça!”
E Tertia um ror de palpites oferece,
Mas só um a cada minuto.
Depois, por súbito silêncio tomadas,
Vão em fantasia perseguindo
A criança-sonho em sua jornada
Por uma terra nova e encantada,
A tagarelar com bichos pela estrada
-Ouvem crédulas, extasiadas.
E sempre que a história esgotava
Os poços da fantasia,
E debilmente eu ousava insinuar,
Na busca de o encanto quebrar:
“O resto, para depois…” “Mas já é depois!”
Ouvia as três vozes alegres a gritar.
Foi assim que, bem devagar,
O País das Maravilhas foi urdido,
Um episódio vindo a outro se ligar -
E agora a história está pronta,
Desvire o barco, comandante! Para casa!
O sol declina, já vai retirar.
Alice! Recebe este conto de fadas
E guarda-o, com mão delicada,
Como a um sonho de primavera
Que à teia da memória se entretece,
Como a guirlanda de flores murchas que
A cabeça dos peregrinos guarnece.
Assim como esse poema, a primeira história (As aventuras…) é doce. Encantadoramente simples, divertida e inocente. Uma menina criativa e peralta que sonha com um mundo que não existe. Mas que, se existisse, todos seríamos mais felizes. O final previsível e sem graça não tira o brilho do restante. Já a segunda parte (Através do espelho…) não me agradou. Até para os critérios de Alice, é sem pé nem cabeça. Tanto que levei dias pra ler. Nada empolgante, apesar de ser parecida com a primeira.
Do conteúdo em si, não é necessário acrescentar muito. Todos conhecem a Rainha Vermelha (cortem as cabeças!), a Branca que vive às avessas, o Coelho e seu relógio, o Chapeleiro e seu chá, os gêmes Tweedledee e Tweedledum que completam as frases um do outro, o sorriso do Gato de Cheshire, entre outros personagens.
Apesar dos pesares e das diversas interpretações e representações que já surgiram até hoje, este é um livro que todos deveriam ler.

A verdadeira Alice

Carroll e sua amiga-menina

O culpado por me apaixonar pela Alice: Paixões

A edição encantadora de Alice que li (e minha camiseta)
Publicado em Amo!, Resenhas